terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Sonatina I (288)

Sonatina I

Primeiro perdi a esquerda da direita inutilizando um dos pares. Depois, a direita da esquerda do outro menos usado. Da mão direita, a luva que fazia par com a esquerda, e da esquerda o par da direita. Fiquei com duas luvas diferentes que ainda assim fazem conjunto. Uso-as com inibição, ainda que ninguém repare nas mãos. Ao Domingo, se o clube do bairro joga em casa, vou ao futebol. Ponho o meu melhor chapéu, faço na gravata um nó diferente daquele que uso durante a semana e, se faz frio, calço luvas. Para falar verdade, uso luvas sempre que faz frio, seja dia de semana ou não. Até há bem pouco tempo eu tinha dois pares de luvas. Se usasse sapatos de cor diferente todos reparariam, mas nas mãos, que pendem com maior liberdade dos lados do corpo ninguém repara. Uso, por isso, com a finalidade de me evitar embaraços perante os outros uma mão no bolso. Devo tê-las perdido à saída de algum edifício, num transporte público ou num banco de jardim onde possa ter estado. No cinema, por exemplo, dado que por vezes vou ver um filme. Sim, pode ter sido no cinema. A caminho de casa sento-me nos espaços públicos e demoro-me entregue a pensamentos. Ficam por vezes coisas para trás. Volto a elas quando estou distante. Pudesse eu recordar-me onde deixo ficar o que perco, mesmo as palavras que não digo que ficam nos sítios por onde passo, e voltaria a esses locais na esperança de recuperar o que me pertence. Perguntaria se não fosse tão tímido, viram por aqui uma luva minha, preta ou castanha?, é minha sabem?, fui eu que a perdi, alguém a encontrou?, foi uma prenda que me deram e que lhe tenho muito afecto, viram-na?

 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O exame que faltava fazer (287)

 

 

É quase amanhã. Amanhã será o dia 18 de Dezembro, e pronto. 18 do mês em que sobra amor nas esquinas, como é hábito, para dar aos mais necessitados. O resto do ano que se lixem os que nada têm, mas no mês de Dezembro há que dar que fica bem. Amanhã, dia 18 de Dezembro, lá no meu trabalho mandaram-nos reunir bem cedo. Parece que há exame para as outras pessoas que são como nós mas que por motivos que se desconhecem e infinita má fé do Ministro da Educação não têm tido trabalho como nós. Mas parece que trabalho para fazer nas escolas não falta. Há professores com alunos a mais, há professores sem alunos, logo é só DIVIDIR e arranja-se trabalho para todos. Desde quando se podem dispensar professores? Não haverá aqui um contra-senso? Então a educação é, ou não é, um dos pilares do desenvolvimento social, económico, e etc. e tal de um país? Parece que estes professores que não têm alunos foram mandados fazer um exame para se saber afinal quem fica e quem vai. Quero dizer, quem vai de vez para o desemprego a pedido da Sra. Merkel. Por causa deste e de outros motivos que me preocupam, tenho observado aqueles rapazes do governo à distância das notícias. E eles não andam bons da cabeça. E não sei se será dos pins que usam à lapela com a bandeira da pátria, se é do jugo que carregam às costas (isto de ser Ministro é coisa de grande responsabilidade e não basta ter ido às aulas todas do padre Emérito para se saber qualquer coisinha sobre como eliminar desigualdades sociais). É preciso ser mais. É preciso que estes tipo saibam que o ano tem 12 meses e que nós lá no trabalho vivemos um bocado aflitos com o que temos para fazer de maneira a manter a casa a funcionar. Quero dizer, nós lá no emprego aplicamo-nos para que os catraios tenham aproveitamento e saibam coisas que o Sr. Presidente da Républica infelizmente não sabe - as coisas que o Saramago escreveu, por exemplo. Há miúdos aqui no sítio que já leram o Saramago, ao contrário do Sr. Presidente da Républica que fala de carta (acho que alguém lhe disse que o Saramago era comunista, e que isso é mau o suficiente para não se ser intelectualmente considerado). É mau? Disseram-vos que o inverno comunista que vos ia levar os anéis e os dedos, e aquilo que é o vosso e o nosso mais precioso bem comum que é a liberdade e a dignidade. E que têm os rapazes do governo feito nos últimos tempos? Empobreceram-nos, maltrataram-nos, levam-nos os subsídios, as pensões que contratámos antes de nos ter aparecido a maldita gota, levam-nos aos poucos a dignidade e querem à força roubar-nos o nosso sustento. Ah, os grandes cabrões! O nosso sustento é o nosso trabalho. Se nos tiram o trabalho vamos atirar-vos pedras, daquelas grandes da calçada. Parece que amanhã dia 18, hão-de aparecer uns tipos que são professores a fazer um exame e já montaram as cadeiras e as mesas no pátio do Bloco de aulas (40 e tal ao todo, só ali). Amanhã há um exame perfeitamente dispensável para quem tem uma licenciatura e está habilitado com estágios e formações vindas da Lua para dar aulas. Estão a enfrascar-nos de merda estes tipos do governo, um dia fodem-se! Garanto-vos!

Eu cá não vigio exames de professores para os mandar para o desemprego. Já disse!