quarta-feira, 19 de junho de 2013

Carta ao Crato (260)


Meu caro Nuno Crato.

A forma como ouso tratar-te não é desrespeitosa, acredita. É para que melhor nos entendamos naquilo que te pretendo dizer. Sendo tu e eu ambos professores, teremos, certamente, muito em comum relativamente à profissão que exercemos; e é por isso que a ti me dirijo desta forma, colocando-te olhos nos olhos, à mercê do que te vou dizer, à altura exacta a que deveriam estar todos os professores deste país. Olhos nos olhos Nuno, nós nos teus e tu nos nossos.

Quero dizer-te que nunca vi no meu local de trabalho tão vivo sentimento de solidariedade entre os meus colegas professores. Como bem sabes, quando cheira a esturro, a classe docente tem por hábito unir-se. Mas, desta vez, estamos para além do espírito corporativo, ou da cega sensação de pertença a um grupo profissional. A experiência rara que vivemos tem uma razão. E eu vou-te dizer qual é: estamos unidos defendendo os nossos postos de trabalho. De facto, acredita que, a nossa luta, se resume simplesmente à defesa do direito ao trabalho.

Quero que saibas que não odiamos e que não queremos prejudicar nem alunos, nem o sistema de ensino, nem, tão pouco, o governo na pessoa deste ou daquele governante, ainda que tenhamos duras criticas a fazer-vos sobre a forma como tendes governado. Não somos descartáveis Nuno. Não se resolve um problema de má gestão despedindo indiscriminadamente quem tão diligentes provas tem dado no seu desempenho profissional.

Meu caro Nuno, como sei que és professor, tal como eu sou, tenho-me perguntado se poderás dormir tu descansado quanto te preparas, em nome do governo e de estranhíssimas instâncias internacionais, para executar o maior número de despedimentos entre os professores de que há memória em Portugal? Sabendo nós deste lado, que és, desse lado daí, também professor, custa-nos a acreditar que o teu sono possa ser sossegado.

Daqui te prometo o melhor que sei fazer, resiliência e dedicação.

Com os meus melhores cumprimentos.

José Miguel Gervásio

 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Estar em greve. (259)

Distante do mundo é o lugar sem nome onde processo algumas coisas. Define-se em volta de um círculo de alfinetes este imaginado espaço. Tem uma rebelde fronteira que me recuso para já a cruzar. Saído dali sou outra pessoa mesmo que carregue nas mão vestígios do delicado trabalho de subir e descer para apanhar significativos e pérolas. Dali para fora sou outra coisa, aborreço-me. No limite do árduo, sonha-se, igualmente, bem. É por isso que não me interessa que ignorem o que faço, ou que não me entendam vizinhos e conhecidos. Incomoda-me estar ao mesmo nível da simplicidade e do agrado comum.

Apetece-me uma cerveja gelada enquanto percorro emoções a fio. Mas não tenho nem copos altos de beber cerveja, nem, tão pouco, à mão uma cerveja que se beba. Gosto de cerveja, entre outras coisas. Ainda por cima chove e, a esta hora, não haverá nada aberto em lado nenhum. Assim, satisfazer o meu desejo seria tarefa difícil. Para além de gostar de ouvir o barulho que a chuva faz ao bater nas folhas das árvores do terraço. A temperatura é amena e entra pela janela aberta o perfume da humidade.

Andei à procura de coisas que me permitissem começar o que pretendo dizer, enquanto tento esquecer a cerveja. Já dei, nesse sentido, meia dúzia de voltas ao texto. Encontrei ali, na estante dos livros, meia dúzia de mortos geniais cujas palavras poderiam dar forma ao que pretendo. Já foi tudo feito, e eu tenho uma boa parte desse feito em livros dos outros.

Hoje não haverá lugar para o tão conveniente e bem aceite meio termo. O tipo que pensa e que performa actos e gestos em função do que possam pensar outros tipos como ele, não terá hoje o dia facilitado. Hoje não será o dia de agradar infantilmente a todos. Hoje, ou se faz, ou se não faz greve. Sei que o dia de hoje será um pesadelo para quem gosta de agradar. Não se pode fazer a revolução com a foice e o martelo dos outros. Hoje decidiremos o lado em queremos estar. Ou estamos do lado lá, ou estamos do lado de cá.

Do lado de lá vive quem não tem pejo em alterar o que não lhe agrada em função dos objectivos que se pretende a atingir. Se for preciso alterar uma Lei altera-se e pronto. Torna-se legal aquilo que, até desvigorar a Lei anterior, era absolutamente legal.

Do lado de cá vive um morto de faces rosadas.

 

sábado, 1 de junho de 2013