sábado, 30 de março de 2013

A santa do skate ia lá casa pela Páscoa (239)

Quando chegava aquele fraterno tempo de nozes e azevias, a Santa dos Rolamentos pegava no seu skate e percorria meio país até chegar a casa das pessoas. E chegando, sentava-se logo à mesa e ouvia-os enquanto comia e bebia. Não lhe davam tréguas e queixavam-se dos males do corpo e de todas as dores que os tinham afligido o ano inteiro. Os sofrimentos saíam dos baús como as restantes relíquias da família e apareciam a brilhar nos distintos peitos das tias, nos pulsos dos tios, nos decotes das afilhadas e dos restante elementos comensais que se juntavam a comemorar a efeméride. Era um ai Jesus, sentados à mesa do fartote, com a Santa a comer e a beber. Copos de vinhos e fazendas caras de fazer fatinhos, doces feitos com a mesma mão que fazia a caridade de limpar os cus dos que o já não podiam limpar. E quanto à Santa, se não estava a comer ou a beber, estava, certamente, a dormir no sofá de veludo vermelho, ou a olear as rodas do skate, ou a ouvi-los com tudo aquilo que traziam na alma. Escutava de boca cheia as mazelas de domínio geral, os padecimentos e as perdas, os suspiros variados e assimétricos, as pequenas enfermidades de borbulhagem e o resto que são as cores com que os outros os pintavam. Ah, a família desfrutava da quadra feliz e a santa que gostava de sopa de peru, esticava o pucarinho com um sorriso avermelhado de satisfação a pedir mais. E figos, ainda os há? Perguntava a rematar.

Por vezes, tocados pelo espírito do momento choravam de tanto rir e riam pelos outros que chorando não podiam mais rir. Pois, na verdade, para a parentela era tudo a mesma coisa, o riso e o choro, a trampa e o ouro, etc., etc.. Eram, sem o saberem, os filhos dilectos do praliné de cagança, do arroz-doce de Cacilhas, do estufado de croquete temperado com vinho de Pias. E a Santa recapitulava as áreas do saber na pompa dos graus académicos e por vezes, levada pelo entusiasmo, cantava loas e outras cantigas ao estilo on the road. Era uma graça, diz quem a viu, era uma graça vê-la de boquinha cheia à mesa e a peidar-se debaixo das vestes celestiais.

 

segunda-feira, 25 de março de 2013

I la nave va (238)

 

No Gato Vadio não cheguei a ler o "Le chien qui fume". Deveria tê-lo lido por ser uma coisa do Porto. Fica para a próxima.

Obrigado aos amigos.

 

sábado, 23 de março de 2013

Fazer render o peixe (237)

Navio parte hoje para o Porto. Já deveria estar na estrada, em andamento, a rolar rumo ao Porto. Mas ainda aqui estou.

Navio apresenta-se no Porto, no Gato Vadio, às 17h. Amigos.

Vou ler o texto do meu amigo Luis Serra sobre o livro Navio.

 

E la nave va

Luis Serra

1.Se apresentar um livro é difícil, apresentar um livro de poesia é muito mais. Hannah Harendt, num ensaio incluído em Homens em Tempos Sombrios, escreve, com exactidão, “falar dos poetas é uma tarefa incómoda; os poetas são para os citarmos, e não para falarmos deles.”

Imagino quase sempre o público destas sessões de apresentação, dizendo entre dentes em direcção ao orador: “diz qualquer coisa de original, diz qualquer coisa de original”, e penso no Nanni Moretti (num dos seus filmes) em frente à televisão: “diz qualquer coisa de esquerda, diz qualquer coisa de esquerda” D' Alema di' una cosa di sinistra. Mas, convenhamos, dizer qualquer coisa de esquerda, sobretudo hoje, é mais fácil do que dizer alguma coisa de original sobre um livro de poesia.

A um livro de poesia só se pode responder, como toda a gente sabe, poeticamente. O ensaísmo e os seus avatares são sempre um pouco penetras na wild party que pode ser a poesia.

2. Dito isto, perguntemo-nos, o livro do José Miguel Gervásio, Navio, tem ou não tem? Tem. O quê? Swing. Não é um livro de pensamentos, mas antes um livro onde, em primeiro lugar, se tenta cumprir um conselho do Marquês de Sade (Sobre os Romances): não ponhas a tua palidez naquilo que escreves. Mas isso não quer dizer que estes textos não estejam carregadinhos de melancolia. Só que esta é ultrapassada pela direita por um desassossego que convoca Kerouak ou Baudelaire. O JMG, que costuma dizer-se muito da Abissínia da Fonseca (Fonseca é um dos outros apelidos do JM), sabe, como Rimbaud, que “o mais provável é que uma pessoa vá para onde não quer, que faça o que não queria, e viva e morra de um modo totalmente diferente do que sempre desejou”(Cartas da Abissínia, & etc,p.76), mas não desiste de ser na literatura, na pintura e etc, “a vizinha louca como uma rainha distraída que tece à porta de casa um pano vermelho sem fim”(p.16, Navio).

3. A bordo deste navio vai muita bicharada¸ mas destaca-se a presença do cão, que imediatamente associo a Diógenes, o cínico, e à sua escola de liberdade, de recusa do poder, de apologia da margem. Todos os poetas são cães vadios:

- p. 13, Pulgas;

- p. 40,Olho de Cão;

- p.50, Não ser à sombra das oliveiras.

Portanto, ser à margem: recusa do desejo de poder.

No entanto, não se recusa aqui o poder do desejo, havendo nestes textos lugar para o amor aos próximos ( e é aí que entra também a melancolia), não ao próximo (nada de beatices!), que perdemos e vamos perder.

Um dos textos mais tocantes que estão na esfera desta melancolia é o da -p. 25, Coscorões e mel dos mortos

O que é dito e o que não é dito, neste livro, comove.

4. Para concluir: a poesia do JM tem uma qualidade, que é ser poesia. Cesari Pavesi dizia que a poesia tinha começado quando um tipo chegou ao pé do mar e disse: parece azeite. As palavras, nos textos do JM, estão combinadas de tal forma, ou desconcertadas de tal forma, que delas se desprendem a energia e a vivacidade que nos permitem vislumbrar “o que falta para tocar o fundo”( Herberto Hélder). Como num filme do Fellini, la nave va, poeticamente: não há aqui prosa disfarçada de poesia, apesar dos textos terem, quase todos, a forma de prosa.

Voltando à imagem do azeite, e para terminar, se este livro fosse azeite seria um azeite que sabia a azeite, não um desses azeites extra-extra virgens feitos para quem não gosta de azeite.

 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Cartas do vale às coisas que sei (236)

Queridas pedras.

Fiquei outra vez por aqui. Não me mexi a manhã toda. Um centímetro sequer para matar a sede ou realizar outro assunto do desejo. Não, não é verdade. Andei pela casa e fui até à varanda de onde melhor se avista o vale. Mas as nuvens tomaram-lhe a garganta toda, fazem da paisagem um buraco cinzento e sem fundo. Afundam-se pela terra adentro, parecendo levar consigo as coisas do mundo nas correntes de ar onde circulam. Não se vê mais nada. Virão flores, estou certo disso.

 

domingo, 10 de março de 2013

Dining at Mekong's, London, UK (235)

 

Querida Tarantantan.

Não sei se sobre o vale acontecerá a aberta que tanto desejo, para que se afastem as nuvens, para o ver florido. Anseio por essa espécie de Primavera, sabendo de antemão que logo virá o estio e a seguir o Outono. Ainda que quase tudo passará a um outro ciclo de vida que tão bem conhecemos, fazia-me falta esse estado de natureza mais ameno, ainda que verde. Mas o tempo apresenta-se alterado, com ligeiras diferenças, relativamente ao dia de ontem. Menos frio, apesar da humidade que se entranha no corpo. Passei parte da manhã a ver nuvens no céu. É rio aquilo que corre lá em cima em direcção ao vale de que te tenho falado que vejo à janela. Cheguei mesmo a pegar numa fita métrica e a medi-las à medida que passavam. Sabias que algumas medem mais de 60 cm, por 30 de largura? É um espanto a natureza que aqui se pode observar.

 

sexta-feira, 8 de março de 2013

234

 

Querida prima. Acordei bem disposto apesar do acidente de ontem. Abri os olhos com o cantar dos pássaros que aqui são muitos e cantam-me à janela do quarto. Por vezes até entram pelo quarto, apesar de lhes ter dado ordens no sentido de o não fazerem. Gosto, como bem sabes, dormir até tarde. Mas, como deves calcular, não consigo fazer-me ouvir a todos os pássaros que há por aqui. Nem imaginas quantos são. Por isso, hoje, deixei que me acordassem para não lhes interromper o guizo. Saltei da cama e dei comigo pelo corredor verde até à casa de banho e em chinelos de quarto. Pus sem demoras a água quente a correr no lavatório. Fiz outras necessidades, enquanto a água corria. Barbei-me e imaginei que pintava um retrato meu. Fiz poses e carantonhas como se fosse um homem louco. Espalhei a espuma no rosto, na cabeça erma e vi-me neste preparos ao espelho. Fiz riscos na espuma branca. Mando-te uma fotografia que tirei da minha cara naquele estado

Amanhã hei-de ir até à cidade buscar outro par de meias de lã que faz muito frio e ando com dificuldade em manter os pés quentes.

 

233

Querida prima. Hoje cortei um dedo ao pequeno almoço. Logo pela manhã a passar manteiga nas torradas a faca afiada veio beijar-me com suavidade a pele e sangrei desalmadamente. Fiz um curativo, acabei o jejum e dirigi-me à janela que dá para o quintal. Lá em baixo passava um pastor e o rebanho. O pastor acenou-me. Sou dele conhecido, costumamos conversar na rua quando nos cruzamos entre as cabras que guarda. Dei sem grande história uma volta pelas redondezas. Do campo vê-se um vale e apetece ir mais longe, mas a chuva que tem caído com abundância não me encorajou. A humidade destes dias desagrada-me. Voltei a casa e pintei um jacinto antes da hora do almoço.

quarta-feira, 6 de março de 2013

233

Tenho no corpo oito coisas de cada vez e um fio de cabelo que não me pertence. Certa vez deram-me uma orelha, ou terei pedido emprestada para usar três na cabeça, e não duas. Veio junto com um sorriso e selos de correio, postais e envelopes. Vou escrevendo. Dou novidades.

 

terça-feira, 5 de março de 2013

232

Querida prima, depois da diarreia de ontem não me consigo mexer. Dói-me o cu todo e mal consigo andar. Tenho ingerido a conselho médico muitos líquidos, e feito autênticas purgas de jejum. Água e mais água e coisas grelhadas que me sabem mal. Alimento-me das vistas do sítio onde estou, destes vales, e das nuvens que parecem inofensivas baleias do céu. Tenho estado sentado sabes onde? Perto de um prado que começa a encher-se de flores. Hoje choveu e caminhei utilizando um caminho entre as ervas altas e agora estou sentado aí, nesse sítio que te digo. Estou a ouvir o cantar das cobras que tem a forma de um silêncio de vidro, muito delicado e facilmente quebrável. Escrevo-te amanhã novamente, pela hora do entardecer a dar novas do meu estado de saúde.