quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

178

De cabeça para baixo sou um pacote de sentidos em infusão. Um molhe onde bate uma espécie de mar feito de muitas mãos é a raiz do teu perfume. Do alto da árvore dos marmelos vê-se a parte de trás do mundo onde vivem coisas que desconheço. Um banco de nozes é uma barreira de coral. A cartilagem e o nervo fazem do jovem aprendiz um elegante jogador de dados. De camisa às riscas não passaria da imagem de um marinheiro ébrio à espera de ser rendido. Um caminho de pedras não deixa de ser um caminho, mas tem pedras.

Um molhe onde bate uma espécie de cabeça para baixo é um caminho de pedras. A cartilagem e o nervo são a raiz do teu perfume de camisa às riscas. Um elegante jogador de dados tem pedras onde vivem coisas que desconheço. Muitas mãos fazem um coral de marmelos. Ter pedras e sentidos fins.

Etc..

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Quem se senta é quem não não tem caminhos urgentes para percorrer. Não sente fome, não sente sede. O espírito meditativo contemporiza a natureza em qualquer lugar. Nem a floresta, nem o espaço infinito existem sem a essência da memória.

O dia estendeu-se lento sobre a pele como um redondo lençol de frio. Com a aparência de um amarelo ferino, assumiu por momentos a forma de uma canção popular chinesa. Tratou-se, evidentemente, de um acidente da melancolia, transportada por um fio de vento que agitava um campo de arroz guardado por um dragão de fumo. Quando o arrozal canta com gravidade, as cegonhas alimentam as crias com esferas de luz. Os pássaros são sempre criações do ar que se vêem no plano de vidro que contempla a serenidadedo presente. Assisti como um incógnito passageiro em viagem a todas as coisas do mundo.

As descrições produzidas aconteceram sob a auspiciosa ondulação da paisagem.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

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Ditam-se umas quantas palavras breves para compor o assim vai do mundo. O ar que é puro aqui e ali, tem sido deliberadamente interrompido pela brevidade de expressões bárbaras e vulgares. Fica o ar com cor de melaço e acontece o fim do dia quando se verifica o juízo. As flores apagam as cores e a noite debruça-se do seu parapeito invernal sobre tudo que é coisa da terra.

A memória é líquida e evapora-se. O vapor da memória tem fragrâncias de tonalidades suaves e contém tudo o que se sabe. Se se evapora um banco de jardim da memória o sentar perde o sentido, o contemplar perde meio sentido. Caminhar ganha assim uma nova perspectiva do ponto de vista do bater do coração, a respiração alonga-se dos olhos às pernas. 

A ciência casou-se tarde no tempo, pela hora da madrugada, quando se verificavam todos os fenómenos conhecidos. O noivo, um homem novo e pouco prudente, veio a sucumbir à era positiva que se veio a inaugurar, electrocutado por um aparelho de cozinha em mau estado. 

 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

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O banco de jardim de Cadiz

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O banco de jardim Zanzibar

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O banco de jardim de Nairobi

 

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O banco de jardim de Ronda

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O banco de jardim de Paris

 

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O banco de jardim de Cambridge.

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(Um pé e parte de uma perna de biblioteca a fingir que são um auto-retrato)

Quando os dias aumentarem de tamanho, aumentarão em grandeza os sonhos, os bolos que existem nos sonhos, a água da boca que se põe nos sonhos, e, só então, os sonhos serão coisas parecidas com torrões de Alicante mas mais doces e menos consistentes. Enquanto esses dias não chegam ao calor da pele, suporto as infidelidades da sorte como golpes imerecidos. 



 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

167

Hoje é dia de achar piada. Rir de não sei o quê. Coçar as costas. Correr contra o vento. Saltar. Hoje é esse dia incerto e sem limites. Dia do riso. Rir. Morrer a rir, sem retorno. De boca aberta. Morte certa da boca escacarada para fora. Palavras.

Por vezes dói onde a dificuldade se junta a um canto. Ao sol que amadurece tudo perece aqui na terra. 

Sou favorável à diferença por natureza do espírito aberto. Ouço dizer coisas contrárias, ligo pouco. Sento-me a ver cair no chão o ar denso das comversas. Falta-me a química para me levantar. Uso a força noutra direcção.

Agradam-me paralélipipedos. Uns, tios dos outros, fazem fila em frente ao pacote de leite gigante. Quando as portas se abrem desaguam todas as formas de explicar o branco. O mundo é branco retocado nos seus limites por um dourado aplicado por ourives.

As melhorias são visíveis, não se verificam atrapalhações. Antevejo um final feliz.


domingo, 5 de fevereiro de 2012