segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

227

 

Primeiro foi aquilo tudo. Palavra atrás de palavra. Rescrevi duma assentada um oceano de coisas. E li tudo, uma vez e outra vez, até que as palavras já se liam por si. Fiquei zonzo e ninguém deu conta disso, com cara de letra e cheio de sede aguentei-me numa dieta parca para não perder o tino com coisas desnecessárias. Matava a sede apenas aos Domingos, fazendo da secura um acto artístico. Depois, tratei de enroupar os pequenos contos e dar-lhes um nome de acordo com o seu corpo. E o ensaio foi difícil, quase Deleuziano. Pretendi ser o momento. Tudo é momento, ou tratável como um momento, como se não existisse mais nada, nem o depois, nem o antes. Vivi, assim, cada momento ainda que não saiba exactamente o quê. Aprendi que quando se presencia a acção já não estamos no bosque, mas sim na sua orla e é possível ver as montanhas e os caminhos. Obsessivamente, tratei de cada coisa no seu poiso e pretendi nesse outro momento transformar tudo numa imagem. A essência em ar respirável, pesei-a delicadamente, acrescentei farripas de verbo e pó, fruta, papel de seda, viagens num certo hemisférios do cérebro mapeado para viajar sem sair do lugar. Por fim, o operador da máquina, o único tipo de Lisboa que seria capaz de fazer o seu trabalho de impressor naquele soberbo orgão que lê e imprime ao mesmo tempo, coisa de tipografia antiga, cheia de magia e óleo finos, museu do tipo, da letra à tinta, adoeceu. Padeceu dias a fio de mal da Lua. Estado dolorável, febril, vertiginoso e frágil, o corpo amanteigado e sem capacidade para operar a máquina ficou preso e inerte. Fiz um telefonema e atendeu-me um carteiro magro. Conversamos sobre alfaiates, agulhas e figurinos tropicais.

Hoje vou trabalhar o cabelo da filha dos embaixadores. O dia todo a esculpir uma sombra e fios de cabelos. E por isso não estou em casa para ninguém.

 

226

Eles abriram a porta que dava para o quintal. O ar tinha sido aromatizado pelo zimbro, pelo rosmaninho e outras flores do tempo. À porta já lá estava o tio mais velho a fumar. Usava um desportivo cachecol vermelho com insígnias e segurava um cão de caça pela trela. O cão obediente estava sentado. O campo recebeu-os a todos com um olhar invernoso. Cumprimentaram-se e puseram-se a caminho. Contornaram o monte de lenha que havia em frente à casa e subiram até ao topo de uma elevação entre as árvores despidas de folhagem.

Em casa ficaram a Demetilia e as criadas. A Demetilia andava atarefada guardando desejos em frascos de vidro. Colava-lhes rótulos onde escrevia rigorosamente datas e outras referências. Rolhava-os com precisão e dava ordens para que os guardassem na despensa fria. Dizia, comem-se quando chegar o Verão. Bandos de pintassilgos voavam pela casa entre a cozinha e uma enorme sala que existia no piso térreo.

Quando ao fim da tarde Demetilia se entretinha com preparos de iguarias culinárias tocaram à porta. Julgou ela tratar-se dos seus que regressavam do campo e por isso ficou aflita. Limpou as mãos num pano e lambeu a ponta de um dos dedos enquanto se dirigia à entrada. Lá fora estava um homenzinho vestido com uma farda cinzenta que trazia no enrolo do braço um embrulho de correio. Demetilia, sempre prestável, convidou-o a entrar, ofereceu-lhe uma bebida quente e abriu dois frasquinhos de bons espíritos que trazia na bolsa do avental. Fez um gesto circular no ar em volta da cabeça do homem e os pintassilgos pousaram-lhe na cabeça. Os três gatos da casa enrolaram-se nas suas pernas. O homem entregou o pacote, despediu-se e saiu sem demora.

Demetilia abriu a caixa e de lá de dentro saíram dois patos cantores e um marinheiro ruivo. Demetilia riu-se e levou-os para junto da lareira.

 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

225

Há uns tipos que conduzem uns carros que são a cara deles. São desportivos tipo o carro deles, cheios de marcas e tiques nas mangas e que conduzem pelas veredas da vida com ar profissional de piloto de automóveis. Há uns tipos assim que eu não gramo e que conhecem os carros todos pelo nome.

O gato já não mora aqui não por causa dos carros dos outros. Tem muito pêlo. Tem farto de pêlo de fazer comichão. As mãos ficam vermelhas de fazer festas ao gato, nascem flores e bolores, crescem raminhos de erva de S. João, brotam bétulas e azeitonas vindas dos confins da pele das mãos, rebenta a alfavaca. O gato faz comichão ao pequeno marinheiro e foi, por isso, morar para o terraço. Não temos quem nos diga as horas.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

222

 

O Vocabulário da Lua.

222

 

Um tipo qualquer.

Um dia qualquer um tipo qualquer com sapatos.

Na cabeça uma coisa qualquer, provavelmente uma ideia atrás da outra.

A vida que me sabe tão bem a bife panado desprende-se até à hora de me deitar.

É mais ou menos directo.

 

sábado, 8 de dezembro de 2012

221

Eles estavam sentados os dois perto de um grande reservatório de água.

É um autêntico espelho - disse um deles.

O outro nada disse.

Caminharam pela beira do lago.

O lado de lá fica longe - disse um deles.

O outro continuou calado.

Eles continuaram durante um dia e uma noite sem parar.

Até que pararam e desistiram da ideia de alcançar o outro lado.

Havia uma árvore nesse sítio amigável.

Verteram mel nas mãos e separam-se.

Eles nunca mais se viram.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

220

 

 

 

Levo uma ideia na cabeça.

Deito-lhe água por cima.

Verto mel lá para dentro.

Vou respirar o mais lentamente que conseguir.

Não vou ler mais nada daquela linha para lá.

Ser do vermelho, e das outras cores, sem receio.

Trazer a pele à superfície.

Verto mel outra vez.

Bebo água.

Respiro.

Dos passos.

Passeio num quintal arborizado.

Deito o olhar.

Desvio o olhar.

Dou passos e pergunto quanto é.

Safo-me mal.

Pede-me uma moeda.

Não dou moedas.

Um sorriso serve?

Sigo por ali, antes de lá chegar volto para trás.

Pede-me uma moeda outra vez.

Não tenho moedas.

Vou por outro sítio para onde quero ir.

Dou passos pesados.

 

219

Vem aí um Navio, de poesia!

 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

217

Afectado por uma coisa que se chama carvão, vou estar a Bach o dia todo. O padecimento assemelha-se a uma espécie de Melancolia Candida Bilis. Coisa benigna que dá quando o lápis pensa a tracinhos. É caminho que gosto de fazer, desaparecer no branco.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

215

Ser uma perna. Ser um músculo dessa perna. Andar na perna. Ter a perna ao lado da outra. Andar com as duas pernas. Ser das pernas. Ter as pernas. Poder correr através das árvores do jardim. Ser um tipo de corrente de ar que corre sobre as pernas. Abrir os braços como a brisa entre as folhas das árvores. Ser um sorriso de vento verde. Folhear uma tarde de verão pelo murmurar da aragem a bater contra as coisas. Inquieto cair de corpo inteiro sobre a terra.À sombra da terra perder o olhar na imensidão dessa queda. Não levantar. Não ter pernas para mais andar. Sonhar, por ali sonhar.

 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

É o 211

 

À mesa, disse-me um amigo, não há muito tempo. Ele é como um grande coelho cor-de-rosa que passa nas costas de um grupo de jogadores de cartas. Ele é simultaneamente o coelho, os jogadores, o mobiliário onde se sentam e jogam, as cartas e a essência do jogo. Descreve o tempo, a solidão e a qualidade de cada momento, como se tudo, mas mesmo tudo, pudesse ser pintado no mesmo plano.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

209 do Hughes

Gosto das coisas que ele deixou escritas. Vi alguns dos episódios The shock of the New. Disse, ou escreveu contra uma certa arte contemporânea, daquela que me aborrece de morte, cheia de lantejoulas, de tachos e panelas, que sem inventiva habita os grandes palácios, que usa diamantes e crânios sem ideias e que come sopa em latinhas coloridas: "Na arte não há progresso, apenas flutuações de intensidade". Disse.
Também li aquela sua magnífica biografia sobre o Goya*. Os nossos monstros, são os monstros de toda a gente. Fico-lhe agradecido pelo livro. Sobretudo convencido, quem cria tem, ou teve, as mesma visões fantásticas do mundo; quando a moral adormece ( e é bom que ela adormeça) solta-se a imaginação.
Morreu o Hughes.
Ainda hoje te faço um desenho pá. Pode ser que gostes.

*Goya. Hughes, Robert. Vintage 2004.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012