domingo, 20 de novembro de 2011

144




Górgias, o leve ser das águas do lago, disse olhando a mulher-cabeça-de-lagarto, como és bela. A tua beleza crua, continuou, faz-me sorrir por dentro do meu corpo. Tudo quanto pretendo ao olhar-te é acariciar os teus seios. A mulher, da cor vermelha das romãs, despiu-se feliz. Górgias sentiu-a no toque das mãos e uma espécie de feltro caiu do céu em forma de curiosos farrapos sedosos. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

143




Era azul por dentro mas não tão azul como possam imaginar. Era azul à volta pelo lado de dentro o suficiente para reflectir uma espécie de azul profundo, da cor dos lagos espessos, das árvores enormes e dos animais como nuvens no céu e para lá do céu e das outras coisas azuis. Azuis diferentes, diga-se. Azulino a que respeita o estado das coisas em geral, era o que se via do lado de fora, antes de entrar. E cogumelos. Cogumelos venenosos que atapetavam vias comunicantes ladeadas por vendavais.

Por vagas o vento sopra que é como dizer de outra forma insuflar. Contínuo, ondulante e azul. Uma coisa quando aparecesse, vê-se ao longe. Um dia azul, por exemplo, vê-se em todo o lado.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

142 (da Lua Nova)



No aranhal nada de novo. Um prado novinho em folha ergueu-se no limite da floresta que circunda o pequeno lago. A mulher-cabeça-de-veado cortou a língua e entregou-a às outras mulheres. Recebeu-a a madressilva com as mãos postas num acto de serenidade.
_Para que me dás tu a tua língua.
_Para que me possas falar na minha língua. Disse com palavras empapadas em sangue. Mil cabeças de alfinetes voaram no céu desse dia. As flores cresceram e envolveram todas as cadeiras onde sentavam as mulheres, cobriram as mulheres que se uniram para sempre às flores. A água ferveu virulenta no centro do lago e ergue-se Górgias, o morto. O dia acabou com a imagem de um gato tranquilo a lamber uma pata através de um limoeiro.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

141 da nova fase


O teu lago perfuma-se a si mesmo. Tem cada coisa o seu tempo. As palavras debotam-se de tanto se usarem. Morrem dentadas na fome. Queres uma bandeira em forma de floco de neve? Perguntou o mestre sapo ao rapaz descuidado. A memória aviva-se noutro sentido. Todas as perguntas que não tens na cabeça estão noutro sítio qualquer. Sou um pássaro.